Por Eduardo Emrich Soares, presidente & CEO da Biominas Brasil

Tive a oportunidade de acompanhar os eventos promovidos pela Biotechnology Industry Organization no Brasil na semana passada, em Brasília e São Paulo, tendo como base o relatório Building the Bioeconomy – Examining National Biotechnology Industry Development Strategies, organizado pela empresa de consultoria Pugatch Consilium a pedido da BIO.

O relatório analisou oito países* sob a ótica dos enabling factors considerados essenciais para o desenvolvimento de uma indústria de biotecnologia. São sete estes fatores: capital humano; infraestrutura para P&D; proteção à propriedade intelectual; ambiente regulatório; estruturas de transferência de tecnologia; incentivos comerciais e mercadológicos; esegurança jurídica (incluindo o estado de direito). O relatório integral está disponível em diversos sites, incluindo o site da Biominas Brasil. O mais importante é analisar a receptividade das conclusões, os comentários, bem como o que pode surgir de ação futura.

Da primeira parte, realizada em Brasília, com diversas instituições do governo, saí com aquela imagem na cabeça do copo meio cheio. Cada representante do governo** teve a oportunidade de pontuar o que vem fazendo em relação a cada um dos 7 fatores. Os avanços são a parte cheia do copo. Na parte vazia estão aquelas providências que todos sabemos ainda necessitam ser tomadas para sanar questões como falta de mão de obra especializada, especialmente nas etapas de escalonamento, produção e gestão; regulação lenta e complexa para estudos clínicos, lentidão na análise de pedidos de patentes, em especial no exame de patentes farmacêuticas, como o envolvimento da ANVISA; limitações em comercialização e transferência de tecnologias de universidades, e etc. O consenso no final das apresentações é a falta de coordenação entre os diversos agentes do governo e de organização do setor.

Mais tarde, conversei com o Dr. Meir Pugatch, sócio da consultoria Pugatch Consilium, sobre a necessidade de um plano estratégico para o setor, com metas claras e objetivas. Sem dúvidas, precisamos revisar e reformar a Política industrial de Biotecnologia (2008) de forma a refletir os objetivos do país em relação à biotecnologia.

Na parte empresarial, que ocorreu na sede da FIESP em São Paulo, com apoio do Combio/Biobrasil, o evento passou algum tempo explorando a tentação de culpar o governo por quase tudo. Quando se tentou orientar pelo que é possível fazer com menor interferência do governo, a conclusão de muitos é que transferência de tecnologia é algo que podemos trabalhar mais. As palavras do Mark Crowell sobre o modelo de negócios, práticas e atividades da University of Virginia Innovation tiveram um grande impacto na platéia, especialmente na tarde dedicada aos núcleos de inovação tecnológica (NIT). Os números da North Carolina, onde o forte desenvolvimento ocorreu quando do incentivo à criação de startups, reforçou minha convicção quanto à necessidade de conhecermos melhor as ideias, projetos e pesquisas existentes com potencial de negócio no país e apoiar de forma profissional o seu desenvolvimento.

Na ultima sessão, houve uma discussão interessante sobre a Lei de Inovação, em especial das formas de transferência de tecnologia permitidas, e expectativas de investidores e empresas em busca de investimento, mostrando o descasamento claro ainda existente entre os três elos importantes da cadeia: academia, empresas nascentes e investidores de risco.

Em resumo, como disse Dr. Pugatch durante a abertura dos trabalhos e repetido várias vezes ao longo destes três dias, precisamos criar uma maior sinergia entre os atores do setor. Em complemento, reforço o primeiro enabling factor: recursos humanos.  Ainda são poucas as pessoas que realmente entendem do negocio da biotecnologia no Brasil.

* Brasil, China, Índia, Coréia, Rússia, Singapura, Suíça e Estados Unidos.

** MS, MDIC, MCT,  ANVISA, INPI e CAPES.