NicolelisPor Flávia Ladeira, Coordenadora Técnica da Biominas Brasil

“A Fifa nos informou que nós teríamos 29 segundos para realizar um experimento dificílimo. Nunca ninguém fez uma demonstração em 29 segundos de robótica. Isso não existe em lugar nenhum do mundo. Foi um esforço dramático de todas essas pessoas que estão aqui. E nós realizamos em 16”, disse Miguel Nicolelis. “Pelo visto, a Fifa não estava preparada para filmar um experimento que vai ser histórico”, completou. Fonte: G1

Para entender um pouco da indignação do pesquisador brasileiro que coordenou tal projeto, precisamos voltar um pouco no tempo.

Miguel Nicolelis, formado em Medicina e Doutor em Fisiologia pela USP iniciou suas atividades com microcomputação integrada a redes neurais em seu doutorado em 1988 com orientação do Dr. Gyorgy Miklós Bohm. Na década de 90, assumiu o cargo de professor de Neurobiologia na Duke University nos EUA, classificada como uma das 7 universidades mais prestigiadas do país. Em 2001 se tornou codiretor do Centro de Neuroengenharia da universidade.

Um dos sentimentos presentes na maioria dos cientistas brasileiros que deixam o Brasil é a vontade de voltar e poder desenvolver projetos científicos em território nacional com o mesmo nível que se faz lá fora. Nicolelis teve essa oportunidade em 2004 com a fundação do INCT Interface Cérebro Máquina (INCEMAQ), que, sob sua coordenação e através de seus contatos, se tornou o Instituto Internacional de Neurociências de Natal-Edmond e Lily Safra. Ainda usufruindo de sua rede de relacionamento, criou um consórcio internacional que tem um único objetivo: devolver o movimento dos membros aos pacientes vítimas de trauma. Este objetivo foi alcançado através de uma touca especial que capta as ondas cerebrais por eletroencefalografia. Os sinais produzidos pelo cérebro quando o paciente pensa em caminhar são coletados pela touca e enviados a um computador acoplado ao exoesqueleto, que emite comandos para a veste externa se movimentar, fazendo o para/tetraplégico andar.

Foi então selecionado um voluntário para demonstrar o resultado a todo o mundo através da transmissão da abertura da Copa: Juliano Pinto, 29 anos, paraplégico completo do tronco e membros inferiores. Para um brasileiro, seja Nicolelis ou Juliano, mostrar para todos a sua conquista através do chute inicial de uma Copa, realizada em seu próprio país, é um sonho.

A equipe foi informada de que teria apenas 29 segundos para o feito. “Impossível demonstrar um experimento de robótica em 29 segundos”, alguns poderiam pensar. Ouvir a palavra “impossível” já é comum para os sonhadores, e o que difere o conquistador do sonhador é o ato de não desistir após ouvir essa palavra. Nicolelis, Juliano, os demais voluntários que testaram o equipamento, a AACD, e todos os outros envolvidos no projeto sonharam; e ninguém desistiu. E o chute foi dado. E fizeram mais: tinham 29 segundos e fizeram em 16. Mas apenas 7 segundos foram transmitidos.

Em 7 segundos, vemos um soco no ar (como o Rei Pelé fazia ao comemorar um gol) exteriorizando a felicidade de um jovem ao conseguir fazer sua perna voltar a se mover. Em 7 segundos vemos os voluntários da AACD vibrando e olhando com admiração um paciente fazendo algo que para muitos pode ser algo simples, mas que para eles é um grande incentivo às novas conquistas.

Três aprendizados devem ser destacados nesse fato:

(1)  Nós brasileiros sabemos fazer o impossível;

(2)  Nossos cientistas são excelentes dentro ou fora do país, e muitos querem voltar e fazer o Brasil crescer;

(3)  Para recebermos atenção internacional pelos nossos feitos não será fácil, mas voltemos ao ensinamento 1: nós podemos fazer o impossível.