Por Eduardo Belo | Para o Valor, de São Paulo

O Brasil pode desenvolver ainda mais seu potencial de produtor de alimentos, fibras e biocombustíveis se for capaz de manter investimentos em biotecnologia e desenvolver políticas públicas baseadas em produção científica. O país precisa também criar sistemas de inteligência para antecipar mudanças e tendências da sociedade e da economia, a fim de evitar escolhas erradas no campo tecnológico. Erros nas escolhas podem custar dinheiro e atraso no desenvolvimento econômico e científico, em época de rápidas mudanças. Essa foi, em resumo, a tese defendida pelo presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Mauricio Antônio Lopes, corroborada pelo ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, no seminário Biotecnologia e Inovação, promovido pelo Valor esta semana.

A preocupação é com a complexidade do mundo atual, que tende a se intensificar, disse o presidente da Embrapa. “Não podemos correr o risco de tratar os desafios com uma visão verticalizada e reducionista”, afirma. “A tecnologia não vai ajudar a resolver todos os problemas, mas é preciso compreender as possibilidades que ela oferece.”

Pesquisador de origem (geneticista), Lopes defende a inovação aberta, na qual o desenvolvimento é promovido em cooperação por várias instituições e empresas. Ele rebateu críticas sobre o relacionamento da Embrapa com empresas privadas e revelou que em breve a estatal vai lançar um produto biotecnológico em parceria com a alemã Basf.

“Nenhuma instituição trabalhando isoladamente vai conseguir impactar significativamente (a produção científica) em um mundo complicado como esse”, comenta. Lopes cita a indústria farmacêutica, na qual muitos laboratórios trabalham em parceira entre si e com institutos de pesquisa para baratear e apressar o desenvolvimento de novos princípios ativos. “Não dá para produzir conhecimento sem interação com a academia e o setor privado, porque a inovação não acontece nas bancadas dos laboratórios, mas no mundo real.”

De acordo com Lopes, a Embrapa coordena hoje pesquisas de 400 cientistas dos quadros da estatal e de instituições parceiras trabalhando em temas importantes para o desenvolvimento agropecuário brasileiro. A entidade está empenhada na solução de questões como agricultura de baixo carbono e no crescimento “vertical” da produção – expansão do volume sem aumento significativo da área cultivada.

Roberto Rodrigues, ex-ministro e hoje coordenador do centro do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV), aponta a importância de políticas públicas para dar impulso ao desenvolvimento científico. Ele cita a produção de soja transgênica. Quando assumiu o Ministério da Agricultura, no primeiro mandato do presidente Luis Inácio Lula da Silva (2003), a soja geneticamente modificada representava 12% do total produzido pelo país. Havia resistência à aprovação do cultivo do produto inclusive pelo Congresso Nacional. Foi preciso esclarecer o governo de como funcionava a modificação genética.

O esclarecimento foi liderado pelo atual presidente da Embrapa, funcionário de carreira da estatal. Convencido, Lula editou medida provisória autorizando a produção de transgênicos. No ano passado, a soja geneticamente modificada representou 90% do total colhido. Em dez anos, a produção do grão no Centro-Sul cresceu 50%, com aumento de 43% na área plantada.

Rodrigues acredita que a área de bioenergia também pode ser beneficiada por políticas públicas voltadas para a exploração dos potenciais do país, de modo a manter o Brasil como líder mundial na produção de energia a partir de biomassa. Ele afirma que o atual governo “abandonou o setor” ao impedir o reajuste dos preços nos derivados de petróleo. Rodrigues também menciona a revolução tecnológica ocorrida nos últimos 40 anos pela Embrapa na transformação de solos ácidos do Cerrado em terras férteis para apontar o potencial brasileiro de produzir alimentos e bioenergia em outras áreas do globo, em especial na África e Ásia. A Embrapa já participa de programas de desenvolvimento da produção agrícola em partes do território africano.

Na exposição sobre “Qualidade de Vida, Alimentação e Transgênicos”, o médico cancerologista Drauzio Varella afirmou que a discussão sobre a segurança dos transgênicos é “quase religiosa”, porque existe a crença, infundada, de que ocorrem transformações profundas nos organismos geneticamente modificados (OGM). “Isso sempre foi feito, através de cruzamentos para melhoramento genético. O que se faz agora é mudar a sequência de genes, utilizando características já existentes”, explica. Para o médico, é preciso ampliar o conhecimento das pessoas sobre o processo. “Só isso vai acabar com a resistência aos transgênicos.”

Varella ressalta que carecem de fundamento científico as afirmações de que produtos geneticamente modificados podem ser perigosos para a saúde. Medicamentos como interferon e insulina sintética não passam de OGMs, e no entanto não existe um clamor contra seu emprego. Ele diz que também faltam evidências médicas de que alimentos naturais, como a carne bovina, por exemplo, sejam danosos à saúde. Segundo Varella, um estudo para comprovar supostos malefícios da carne vermelha, para ter validade estatística, teria de envolver ao menos 100 mil pessoas por 20 anos, ao custo estimado de US$ 1 bilhão. Por isso não foi feito.

“No mundo da biotecnologia, a propriedade intelectual é decisiva”, disse o advogado Luiz Henrique do Amaral, membro da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI). Segundo ele, a discussão de patentes no Brasil será importante para o desenvolvimento econômico e tecnológico dos próximos 20 anos, sem o que, o país não conseguirá sustentar o processo de inovação.

Também participaram do seminário dois especialistas internacionais. Nicola Cenacchi, pesquisador do International Food Policy Research Institute (IFPRI), falou sobre mudanças climáticas. Ele apresentou estudos em andamento sobre o emprego de variedades resistentes à seca e mais capazes de absorver nitrogênio do solo como o caminho para superar as dificuldades da produção de alimentos no futuro, com o aumento da temperatura global.

Já Gregory Stock, fundador do Programa de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (UCLA), traçou um paralelo entre os avanços da ciência na área eletrônica e na biotecnologia. Ele se concentrou na perspectiva de um futuro melhor na área da saúde e da qualidade de vida.

 Fonte: Valor