PChave mestraonte entre universidade e indústria, centros tecnológicos como o CITSF, criado pela Fiemg e o Senai, tornam Minas uma nova referência em nível nacional.

Uma das maiores preocupações mundiais, atualmente, é alcançar o crescimento sustentável, mas a realidade é que a economia gira em grandes ciclos ancorados em avanços tecnológicos, responsáveis por dar o pontapé neste irreversível processo de desenvolvimento. A venezuelana Carlota Perez, uma das principais estudiosas da dinâmica destes ciclos, em seu livro Revoluções Tecnológicas e Capital Financeiro, identifica duas fases determinantes para isso: a inicial, na qual uma nova estrutura se instala graças a uma revolução tecnológica; e a segunda, em que os esforços e recursos aplicados anteriormente geram um longo período de bonança. E, se é este o alicerce do crescimento, a fórmula certeira para bater esta meta é o investimento constante em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

Apesar de representar uma equação de sucesso garantido em todo o globo, esta área ainda caminha lentamente no Brasil, onde os recursos destinados ao setor, de uma forma geral, permanecem escassos.

De acordo com dados da SCOPUS Database, importante ferramenta de pesquisa acadêmica, o País ocupa uma honrosa 15ª posição mundial em produção científica, mas, em relação ao índice global de inovação apurado pela Global Innovation Index, que ranqueia a performance de 143 países em relação ao tema, a nação amarga o 64º lugar – um claro abismo entre os processos de pesquisa e o desenvolvimento do produto.

De acordo com informações da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o Brasil investe anualmente em Ciência, Tecnologia e Inovação o equivalente a 1,13% do Produto Interno Bruto (PIB), sendo 0,54% deste total oriundo da iniciativa privada e 0,59%, do poder público.

Para efeitos de comparação: na Coreia do Sul, são aportados 4% das riquezas nesse segmento, dos quais três pontos percentuais saem da indústria e um ponto percentual parte de empresas e instituições privadas.

Nos países mais desenvolvidos, a média de investimentos gira em torno de 2,52% do PIB – mais que o dobro do Brasil.

O cenário nacional parece pessimista, mas esta não é a realidade de Minas Gerais ou, mais especificamente, de Belo Horizonte, que vem se tornando uma das principais referências quando o assunto é P&D. A cidade já havia iniciado uma trajetória positiva, mas ganhou ainda mais notoriedade quando, há oito anos, passou a sediar o único centro de inovação do Google na América Latina, após a compra da startup mineira Akwan, fundada por professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pela gigante da internet, que a transformou na base da sua equipe brasileira.

Com o sucesso dessa empreitada, empreendedores mineiros ganharam fôlego para apostar no mercado digital, e algumas startups passaram a ter mais visibilidade, propiciando um ambiente de inovação inspirado no Vale do Silício norte-americano.

A região ficou conhecida como San Pedro Valley, um polo de tecnologia formado por jovens profissionais no bairro São Pedro. Hoje, estes empresários estão espalhados por toda a capital mineira e, de acordo com o site do grupo, existem 198 startups, sete incubadoras, quatro aceleradoras e 16 espaços de coworking, modelo de trabalho que se baseia no compartilhamento de espaço e recursos de escritório por pessoas que atuem na mesma empresa ou área.

Seguindo esse histórico, Belo Horizonte caminha a passos largos para ser reconhecida como a “Cidade do Conhecimento”, movimento impulsionado também pela criação da Lei da Inovação (Lei Nº 10.973/2004), do Ministério da Ciência e da Tecnologia, que estabelece medidas de incentivo no ambiente produtivo, com vistas à capacitação e ao alcance da autonomia tecnológica e ao desenvolvimento industrial do País. O projeto foi idealizado e composto pelo Centro de Inovação e Tecnologia Senai Fiemg (CITSF), em parceria com Embraer; Biominas Brasil, Centro Brasileiro de Inovação e Tecnologia (CSEM Brasil); Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), que será responsável pela construção de um campus no bairro Horto, onde as entidades já estão instaladas. Na mesma região estão também o Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais.

A base do projeto é o Centro de Inovação e Tecnologia Senai Fiemg (CITSF), criado para cumprir uma das metas do Programa de Competitividade da Indústria, lançado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em abril de 2012. A partir de um acordo entre o governo mineiro e a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), a entidade, em conjunto com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), assumiu o centro tecnológico em dezembro de 2013.

Desde então, o Centro recebeu investimentos da ordem de R$ 40 milhões e a previsão é que sejam aplicados mais R$ 600 milhões até 2016.

A metade deste valor será destinada para a modernização e implantação dos laboratórios dos oito institutos de tecnologia e inovação que compõem o Campus CETEC. Serão 32, 16 deles já em funcionamento com os equipamentos mais avançados do mundo.

O restante será aplicado no Campus Itajubá, que abriga o Instituto Senai de Inovação em Energia Elétrica de Alta Potência, que também terá tecnologia de ponta mundial e deve ficar em dois anos. Quando for inaugurado, será o maior laboratório de teste para produtos de energia elétrica e redes inteligentes da América Latina.

Atualmente, o CITSF é dividido em duas unidades: o Campus CETEC, em Belo Horizonte, e o Campus Itajubá, no sul de Minas. Para o Senai, a iniciativa determina a melhoria do ensino profissionalizante; ampliação dos serviços tecnológicos e incentivo à inovação. “Contamos com o apoio do Instituto Fraunhofer, na Alemanha, e do Massachusetts Institute of Technology (MIT) para direcionar as ações em inovação, e do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), para nos ajudar na área da tecnologia”, conta o presidente do Centro, José Policarpo Gonçalves de Abreu.

“O propósito do CITSF é atender diretamente às demandas e ofertar soluções em tecnologias aplicadas inovadoras para as indústrias, além de estreitar os laços da universidade e centros de pesquisa com o setor produtivo empresarial, para transformar estudos em produtos com potencial para o mercado”, explica. Outro objetivo é atrair novamente os pesquisadores mineiros, que no passado emigraram para outros estados. “Minas Gerais é um exportador de cabeças, pois o investimento estava todo fora daqui. Agora teremos laboratórios competitivos. Prova disso são as empresas altamente tecnológicas que estão chegando para integrar nosso centro”, justifica.

O cenário é tão promissor que, em visita recente ao CITSF, o diretor do Gabinete de Ciência do governo britânico e assessor científico do primeiro ministro, Mark Walport, classificou o Brasil como um produtor de conhecimento de nível mundial e um excelente parceiro para contribuir com o crescimento global. “Vejo aqui uma real oportunidade de fortalecer os trabalhos em pesquisa e inovação entre Brasil e Grã Bretanha e espero manter a relação com o CITSF por muito tempo”, afirmou, em carta enviada a Abreu após visita ao País, em maio de 2014.

Hoje, o CITSF abriga um núcleo da Embraer; a Biominas Brasil, fundação que promove o desenvolvimento de negócios em ciências da vida, e o CSEM Brasil, de origem suíça, um dos centros de pesquisa aplicada mais avançados do mundo.

O grande espaço de interação está atraindo gigantes como a Vale, Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e Votorantim Metais, que investem alto em inovação, com pesquisas e laboratórios próprios, e estão em negociações avançadas para compor o quadro da organização.

A fabricante portuguesa de semicondutores Nanium, além de uma outra multinacional cujo nome ainda é mantido em sigilo, também teriam interesse na área do Centro de Inovação e Tecnologia.

Biominas vai da inovação à análise de mercado

Quando pensamos em inovação e tecnologia, as imagens mais recorrentes são computadores e eletrônicos, mas empresas de todos os setores da economia estão aptas a investir nessa área. A Biominas Brasil, por exemplo, é uma fundação de direito privado que, há 25 anos, promove negócios e empresas no setor de biociências.

Uma de suas atividades é a prestação de Consultoria & Desenvolvimento de Negócios, com um portfólio diversificado de serviços, como prospecção de tecnologias e produtos; gestão da inovação; análise de mercado, de tecnologias, de propriedade intelectual e de assuntos regulatórios; suporte ao licenciamento e transferência de tecnologia; planejamento estratégico; assessoria em captação de recursos; alianças estratégicas; e operações de fusões e aquisições.

A organização elabora estudos desde 2001. Entre os mais notáveis, estão o Indústria de Biociências Nacional: Caminhos Para o Crescimento (2011), em parceria com a Pricewaterhouse- Coopers (PwC), e o Da Bancada ao Mercado – Guia Prático Para Inovação Farmacêutica (2012), para Ingredientes de Alimentos (2013) e Saúde Animal (2014). “Quando investimos em inovação, tiramos projetos das bancadas das universidades e estimulamos a criação de produtos gerados por estas pesquisas. Não importa o número de patentes criadas se você não leva o produto para o mercado, se o consumidor não tem benefício. Além disso, as instituições ganham financeiramente e podem reinvestir em suas estruturas.

Geramos renda, emprego e movimentamos toda a economia”, explica a diretora da Biominas Brasil, Angélica Salles.

A organização também abrange a Incubadora de Empresas Habitat. Sua função é abrigar startups organizadas como um condomínio, onde recebem treinamentos, capacitação e consultoria na área de gestão. Prova de que o sistema funciona é que a taxa de mortalidade de empresas que passam por este processo é bem mais baixa que entre aquelas que não receberam o apoio.

O projeto é resultado de uma iniciativa da Biominas Brasil em parceria com o Governo do Estado, Prefeitura de Belo Horizonte e Universidade Federal de Minas Gerais. Em seus 17 anos de existência, já levantou mais de R$ 4,5 milhões de recursos de agências de fomento, estadual e nacionais.

A incubadora já realizou mais de 230 consultas em seu pipeline e graduou 27 empresas. Atualmente tem 15 startups incubadas, ocupando 97% de sua capacidade, mas já existe um trabalho de elaboração de projeto arquitetônico para expansão do atual prédio, dobrando sua capacidade.

De 1997 a 2013, as organizações incubadas tiveram um faturamento de R$ 143,5 milhões e geraram R$ 20,6 milhões em impostos. Já as graduadas tiveram R$ 727 milhões de faturamento e geraram R$ 99 milhões em impostos, entre 2002 e 2013.

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Fonte: Mercado Comum