O Brasil pode estar um pouco distante dos grandes centros mundiais quando os temas são tecnologia e pesquisa e desenvolvimento (P&D). No entanto, é inegável que tem feito esforço para crescer nessas áreas, que apresentam ainda muito potencial a ser explorado no país. Mapeamento sobre a economia criativa brasileira, elaborado pelo Sistema Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), aponta que o número de empregos formais na área de tecnologia cresceu 102,8% de 2004 para 2013, um indicador do avanço no setor. O estudo agrega em tecnologia os ramos de P&D, tecnologia da informação e comunicação (TIC) e biotecnologia; e todos, quando analisados separadamente, registraram altas superiores a100% na geração de postos de trabalho.

Os especialistas afirmam que essas áreas cresceram muito em função de políticas e financiamentos públicos,já que a maior parte requer altos investimentos, para estimular o desenvolvimento e a produção local. Na área de P&D, por exemplo, o poder público vem aumentando paulatinamente a participação no total de gastos do país, que também cresceram (200%) na comparação de 2004 e 2012, passando de R$ 25,43bilhões para R$ 76,46 bilhões, conforme os últimos dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). A fatia pública subiu de 49,49% para 52,37%. No entanto, na participação empresarial estão incluídas empresas estatais também. Os valores totais corresponderam, respectivamente, a 1,31% e 1,74% do Produto Interno Bruto (PIB) e, apesar da alta, está longe do índice dos Estados Unidos, um dos maiores investidores mundiais em P&D em termos absolutos, que gira em torno de 2,7%.

Outro dado relevante que mostra o crescente interesse do país é o número de incubadoras, que mal alcançava duas dezenas há cerca de 20 anos e hoje já se aproxima de 400 em operação. Nas incubadoras, empresas nascentes encontram um ambiente propício para inovar, com infraestrutura e consultoria em gestão e competitividade, entre outros suportes, além da troca de experiências com outros pesquisadores e de estarem numa vitrine para o mercado investidor. “Hoje, temos quatro empresas incubadas investidas por fundos sementes e a maioria também consegue captar recursos públicos, como os da Finep e CNPq, para financiar projetos, ou é bolsista. Nos últimos anos, os incentivos públicos para pesquisa aumentaram”, diz Rafael Silva, coordenador da Habitat, incubadora especializada em biociências – nas áreas de saúde humana, animal, agronegócio, meio ambiente e insumos biotecnológicos.

Oportunidade Habitat_bannerCriada em 1997 pela Biominas, que a gerencia em parceria com o governo do Estado de Minas Gerais, a prefeitura de Belo Horizonte e a Universidade Federal de Minas Gerais, a Habitat recebe semanalmente investidores que desejam conhecer as empresas, principalmente representantes de fundos, mesmo sendo a biociências uma área em que o retorno é considerado mais demorado, diz Silva. Entre a incubadas que receberam investimentos está a Invita Nutrição Especializada. No total, já foram quase R$ 3 milhões apenas para pesquisa, recursos que vieram do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), da Fundação de Amparo à pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), entre outros, diz Wendel de Oliveira Afonso, diretor e um dos fundadores da empresa.

A Invita, incubada desde 2009, também recebeu R$ 500 mil do Fundo Criatec, que é direcionado para capital semente, já aportou recursos em 36 empresas e cujos investidores são o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com R$ 80 milhões, e o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), com R$ 20 milhões. Segundo Afonso, ao receber o investimento do Criatec, a empresa foi transformada em sociedade anônima para ganhar o novo sócio, que hoje detém40% do seu capital. O diretor da Invita diz que os investimentos foram fundamentais para incrementar as pesquisas e desenvolver tecnologia, fórmulas e processos antes não disponíveis no país, um processo iniciado em 2006 quando seus fundadores ainda eram pesquisadores em universidades.

Especializada no desenvolvimento de produtos destinados a doenças metabólicas e alimentos para fins especiais, a empresa lançou suas duas primeiras fórmula sem 2012. “Um deles, o Amix, para crianças com alergia ao leite de vaca, é a primeira fórmula desenvolvida no país. Esse é um mercado ainda dominado por importados”, diz Afonso, acrescentando que o fornecimento dessas fórmulas às famílias é gratuito e as compras são basicamente realizadas pelas secretarias de saúde. Com preços competitivos, cerca de 20% inferiores aos dos importantes, a Invita logo ganhou uma parte do mercado: em 2013,cresceu 1.900% em comparação ao primeiro ano de atividade e mesmo retirando do mercado a fórmula Profenil por problemas na industrialização, que é terceirizada. Em 2014, a expansão alcançou 150%; e a expectativa é faturar o dobro este ano, quando deverá lançar ao menos mais três produtos, também frutos de tecnologias inovadoras. O retorno do investimento, afirma Afonso, já foi assegurado com os resultados de 2014.

Desde a fundação, a Habitat contabiliza 52 empreendimentos contratados, com faturamento acumulado de R$ 155,6 milhões até o final de 2014. Do total de incubadas, 27 delas já deixaram a Habitat e a primeira foi graduada em 2002. Essas companhias registraram faturamento acumulado de R$ 727 milhões, entre de 2002 até o ano passado. Hoje, a incubadora tem 16 empresas, que ocupam 100% das instalações. Como o prazo médio de permanência das incubadas na área de biociências é longo, em torno de oito anos, e a lista de espera cresce, a Habitat planeja ampliar as instalações, dobrando a área construída, de três mil metros quadrados atualmente, um projeto orçado em R$ 2 milhões. “Estamos em fase de captação de parceiros e recursos. A meta é que o novo prédio esteja construído até o final de 2017”, diz Silva. A nova área deverá ser destinada para as empresas com projetos de tecnologia da informação direcionados à saúde, a denominada digital health, um segmento que cresce muito e exige menor tempo de incubação, afirma o coordenador da Habitat.

 

Fonte: Brasil Econômico