Por Carolina de Andrade, Analista Técnica da Biominas Brasil

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Uma infecção emergente está acontecendo nas Américas, uma epidemia causada pelo flavivírus Zika, que é transmitido através da picada do mosquito Aedes aegypti. As manifestações clínicas da infecção pelo vírus Zika incluem febre baixa, erupções cutâneas avermelhadas, dor nas articulações (caracteristicamente nas mãos e pés) e conjuntivite não purulenta. Mas a principal e mais discutida consequência da infecção pelo vírus Zika é a associação entre a microcefalia congênita e perdas fetais em mulheres infectadas durante a gravidez. A investigação desta correlação ainda está em curso e é largamente discutida. De acordo com uma análise preliminar realizada pelas autoridades brasileiras, o maior risco de microcefalia e malformações está associado com a infecção durante o primeiro trimestre da gravidez.

A prevenção envolve a redução das populações de mosquitos afim de se evitar a contaminação por picadas, que ocorrem principalmente durante o dia. Eliminar e controlar criadouros do mosquito Aedes aegypti reduzem as chances de que Zika, Chikungunya e Dengue sejam transmitidas. Uma resposta integrada é necessária, envolvendo ações em diversas áreas, incluindo saúde, educação e meio ambiente.

Outro modelo de prevenção que vem sendo discutido é o desenvolvimento de uma vacina contra o Zika vírus. Segundo revelação ao jornal O Estado de São Paulo, do diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), Jarbas Barbosa, o governo brasileiro vem discutindo um acordo com o NIH (National Institute of Health), dos Estados Unidos, para a produção de uma vacina. Segundo ele, a entidade americana reúne centros que já trabalham com o Brasil na vacina contra a Dengue, em desenvolvimento pelo Instituto Butantan, o que facilitaria o processo. Em dezembro de 2015, o Instituto Butantan comunicou que se prepara para dar início aos estudos de uma vacina contra Zika. A instituição ainda prepara o protocolo de pesquisa que deve passar pelo conselho de ética e pela análise técnica da ANVISA, para que se possa dar início aos estudos. No dia 11 de fevereiro de 2016, foi anunciada a assinatura do primeiro acordo internacional, entre o Instituto Evandro Chagas (no Pará) e a Universidade do Texas. Apesar das diferentes frentes de atuação, os estudos para buscar uma vacina contra o Zika ainda são embrionários e devem ser considerados apenas como uma solução de longo prazo.

Hoje existe apenas um sorotipo circulante do Zika vírus, ao contrário do vírus da Dengue que apresenta quatro sorotipos diferentes. Recentemente houve a aprovação de uma vacina tetravalente contra o vírus da Dengue, sendo esta fabricada pela francesa Sanofi. Não há indícios de que uma pessoa contaminada com vírus da Zika esteja susceptível à uma nova contaminação, e, assim, esta se tornaria imunizada contra esta doença após a primeira infecção. Este seria o mecanismo de proteção de uma possível vacina contra Zika, que estimularia a produção de anticorpos contra o vírus.

Uma nova vacina contra Zika vírus precisa ser aprovada como produto biológico novo, de acordo com a Resolução – RDC nº 55, de 16 de dezembro de 2010. É preciso apresentar à ANVISA o dossiê completo, que caracteriza todo o processo produtivo, demonstrando a consistência na manufatura do medicamento, além de substanciais evidências de segurança e eficácia clínicas, demonstradas por meio de estudos não-clínicos e clínicos de fases I, II e III. Para a vacina contra a Dengue, por exemplo, o dossiê de registro foi submetido pela empresa Sanofi em 31/03/2015, sendo priorizada a análise pela Anvisa em 27/04/2015. Sua aprovação aconteceu no dia 28/12/2015.

Uma das maneiras de se acelerar a aprovação da vacina é requerer o registro do produto com os estudos clínicos fase II já concluídos e com estudos fase III em andamento, desde que seja demonstrada uma alta eficácia terapêutica ou preventiva e/ou não exista outra terapia ou droga alternativa comparável para aquele estágio da doença. Porém, a segurança e a eficácia da vacina deverão ser monitoradas e avaliadas continuamente no Brasil, pelo sistema de Farmacovigilância da empresa detentora.

De acordo com entrevista concedida por Jorge Kalil, diretor do Butantan, durante visita do Ministro da Saúde Marcelo Castro à instituição, o período para testar a vacina em macacos é de um ano. A partir daí, seriam necessários de 3 a 5 anos para efetivar o registro. Para que a previsão feita por Kalil seja atendida, contudo, é necessário realizar uma série de análises científicas sobre o vírus que demandam longos estudos. Para efeito de comparação, em condições normais, uma vacina pode demorar de 10 a 12 anos para ser desenvolvida por completo. Os laboratórios do Butantan já mantêm estudos sobre o Zika. A expectativa do Laboratório é de produzir a vacina a partir do vírus da Dengue atenuado, que receberia o gene responsável por codificar a proteína do Zika. Esse método ajudaria a reduzir o tempo de desenvolvimento, pois o processo de atenuação de um vírus é longo. É importante destacar a necessidade de autorização prévia do órgão competente, Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), se for realizada alguma modificação genética no vírus atenuado da Dengue ou no Zika vírus. Esta autorização deverá ser requerida antes mesmo dos primeiros requerimentos feitos à ANVISA.

Em paralelo a essas iniciativas de desenvolvimento de vacinas, tem-se o desenvolvimento de outras tecnologias inovadoras. A empresa britânica Oxitec, por exemplo, foi a responsável pelo desenvolvimento de machos geneticamente estéreis que encontram por instinto as fêmeas selvagens. Os filhotes desses cruzamentos morrem antes da idade adulta. Estes machos estéreis ajudam a reduzir a população das fêmeas e, consequentemente, a transmissão da doença. Estes mosquitos estão sendo testados em cidades da Bahia e a sua utilização vem demonstrando bons resultados. Outra pesquisa de destaque é realizada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz – RJ). A instituição está inoculando em mosquitos a bactéria Wolbachia, na esperança de incapacitar o inseto a transmitir doenças tropicais. Machos com Wolbachia que acasalam com fêmeas nativas resultam em ovos que não vingam. Já o cruzamento entre dois mosquitos com Wolbachia resulta em filhotes portadores. Quando apenas a fêmea está infectada, os ovos que ela gerar também carregarão a bactéria consigo. Testes estão sendo realizados na cidade de Tubiacanga, no Rio de Janeiro.

Enquanto a vacina contra o Zika vírus está sendo desenvolvida e a expectativa da mesma chegar ao mercado é de um prazo considerável, é preciso associar as medidas inovadoras de combate ao mosquito Aedes Aegypti com as práticas tradicionais de combate, como não deixar água parada.