Ter recursos disponíveis é uma das principais dificuldades de toda empresa, independente do porte e do setor. Mas esta questão muitas vezes é mais preponderante no setor de Ciências da Vida, no qual o volume de recursos necessários para desenvolver uma nova tecnologia é muito alto. Nesse artigo vamos apresentar algumas dicas que podem ser úteis na hora da captação de recursos, sejam públicos ou de investidores, e alguns pontos que você deve avaliar antes de definir qual recurso é o ideal para seu empreendimento.

Recursos públicos

A primeira dificuldade na captação de recursos públicos é conseguir encontrar o edital de financiamento ideal para a necessidade da sua empresa. Vale ressaltar que a maior parte dos editais irá adequar-se melhor ao financiamento de projetos específicos e não à empresa como um todo e que isso exigirá uma atenção maior por parte dos gestores na hora de administrar as despesas que poderão ser custeadas por essa fonte.

O apoio via recursos públicos pode ocorrer de forma direta ou indireta. Na forma direta, o governo aporta recursos diretamente nas empresas ou em institutos de pesquisa para desenvolvimento de projetos em parceria. Entre os diversos agentes públicos que fazem isto, destacamos:

  • Fontes nacionais como o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) e CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).
  • Fontes locais como a FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais) e o BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais).
  • Fontes da iniciativa privada como o SESI (Serviço Social da Indústria) e o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial).

 

Na forma indireta, o apoio do governo ocorre através da renúncia no recebimento de algum imposto em incentivo ao investimento em P&D. Este apoio é feito via incentivos fiscais, através da Lei do Bem.

No caso dos recursos públicos a captação é feita através da submissão de projetos aos editais.

O processo básico pode ser definido em três passos: busca pelo edital ideal para as necessidades da sua empresa, em que deve ser observado para quais setores o recurso se aplica, valor do montante ofertado, prazos, documentos exigidos, se há exigência de contrapartidas (financeiras e/ou econômicas), entre outros; submissão do projeto e o acompanhamento da aprovação e posterior contratação.

Apesar de serem apenas três passos, existe uma série de etapas que devem ser observadas e cumpridas à risca e que vão variar de edital para edital. O não cumprimento de alguma dessas exigências pode ocasionar a não aprovação do seu projeto e aí você terá que esperar o próximo edital para conseguir recursos.

Vale lembrar que a periodicidade dos editais pode variar muito, pois dependem da disponibilidade de recursos e do posicionamento do poder público em relação às políticas de inovação e essas podem ser outras com a mudança do mandato e com as condições macroeconômicas de momento.

Erros comuns ao submeter um projeto

Mas você pode estar se perguntando: quais os principais erros cometidos na submissão de um projeto? Abaixo, fizemos uma lista com alguns.

  • Falta de clareza nos objetivos propostos do projeto;
  • Metas, atividades e indicadores de execução não definidos ou mal definidos, ou sem coerência uns com os outros;
  • Falta de clareza sobre a participação de outras empresas no projeto;
  • Não demonstrar a relação dos membros da equipe executora às metas e atividades descritas no projeto;
  • Solicitação de recursos para despesas não financiáveis pelo edital;
  • Informações insuficientes sobre a necessidade de contratação de serviços terceirizados;
  • Valores solicitados para compra de itens incompatíveis com aqueles praticados no mercado;
  • Inexistência ou valores incompatíveis de contrapartidas e outros aportes, conforme exigidos pelo edital;
  • Falta de informações sobre a viabilidade econômica e financeira do projeto ou de documentos obrigatórios, exigidos pelo edital.
  • Não envio de documentação solicitada ou envio incompleto.

Como encontrar as linhas de fomento?

A melhor forma de buscar por linhas de fomento é utilizando a internet. A boa e velha busca nos sites das instituições e também no Google utilizando palavras-chave é um primeiro passo para buscar informações de forma mais genérica.  Algumas agências como BNDES e FINEP disponibilizam ferramentas online que facilitam essas buscas ao oferecer filtros que auxiliam a encontrar opções mais adequadas para sua empresa ou projeto. Além disso, a maioria das agências produz newsletters periódicas que listam os editais em aberto e informações sobre as chamadas em andamento.

Outra dica é monitorar as associações e organizações ligadas à área de atuação da sua empresa que divulgam informações desse tipo e o site das universidades de referência.

Submeti meu projeto e agora?

Após submeter e ter seu projeto aprovado no edital escolhido, você ainda tem uma série de tarefas importantes a cumprir para garantir que a contratação dos recursos seja bem sucedida. Dentre elas, as mais importantes são:

  • Elaborar uma planilha de memória de cálculo para o orçamento. Esse é um passo fundamental para que você não esqueça a razão de ter colocado determinados valores para serviços e produtos que foram incluídos no projeto;
  • Ficar atento aos prazos para a formalização e assinatura dos termos;
  • Fazer um check list com as tarefas e despesas a realizar e manter essa lista sempre atualizada;
  • Não realizar despesas que não estão previstas no projeto aprovado;
  • Obedecer às regras de contratação de serviços e aquisição de itens, como, por exemplo, através de licitação;
  • Não fazer remanejamento de valores entre rubricas por sua conta. Sempre consultar antes a agência responsável e arquivar todas as autorizações;
  • Enviar os relatórios e prestações de contas parciais, conforme o termo assinado;
  • E não fazer nenhum pagamento após a data de término de vigência do seu convênio. Isso vale tanto para despesas, quanto para o pagamento de bolsas que possam estar inclusas no orçamento do projeto aprovado.

 

Recursos de investidores
Depois de falarmos um pouco sobre a captação de recursos públicos, vamos falar sobre a captação de recursos de investidores. Para começar, vamos diferenciar os principais tipos de investidores.

Investidores anjo: indivíduos que financiam ideias inovadoras e até mesmo ideias que ainda não foram implementadas na prática.

Capital semente: é um tipo de investimento realizado nas fases iniciais de desenvolvimento da empresa ou de um projeto. Muitas vezes, a empresa ainda está em fase de estruturação. O objetivo principal desse investimento é validar o modelo de negócio e ajudar a empresa a dar seus primeiros passos.

Venture capital: investimento que ocorre em empresas de pequeno e médio porte, com grande potencial de crescimento. O venture capital financia as primeiras expansões e leva a empresa a novos patamares de mercado.

Private equity: investimento em empresas em estágios avançados de desenvolvimento e com volume significativo de faturamento. Quem pode se beneficiar desse tipo de investimento são organizações já consolidadas que utilizam o aporte de recursos como alavancagem financeira e já estão se preparando para abrir capital na bolsa.

IPO (Oferta pública inicial de ações, na sigla em inglês): é a primeira oferta de ações de uma empresa, isto é, quando ela abre seu capital e passa a vender ações na bolsa de valores.

Assim como no caso da captação de recursos públicos, antes de tentar captar recursos de investidores é necessário ter muito claro o que você espera obter desse investidor e para qual finalidade. É essencial dar ao investidor uma noção das metas a serem alcançadas, em qual período de tempo e qual a capacidade de sua equipe para atingir essas metas.

Geralmente, a forma que a empresa irá se apresentar para um investidor é através de um pitch, que nada mais é do que uma apresentação curta que tem o objetivo de despertar o interesse da outra parte pelo seu negócio e, por isso, deve conter apenas informações essenciais e diferenciadas, expostas de forma clara e sucinta. O pitch não é destinado só a investidores, podendo ser utilizado para diferentes públicos, como, por exemplo, clientes ou empresas parceiras. Sendo assim, ele deve assumir diferentes focos, a depender da ocasiaõ, como apresentação técnica do produto, apresentação do negócio com foco em vendas ou apresentação da empresa para captação de investimento.

10 passos para fazer o pitch perfeito!

Além do pitch, é essencial ter um valuation do seu negócio. O valuation é o termo em inglês para avaliação de empresas. É o processo de estimar quanto uma empresa vale, determinando seu preço justo e o retorno de um investimento em suas ações. Existem diferentes métodos para a elaboração do valuation, mas a dica principal é que você deve optar pelo modelo mais simples e trabalhar com cuidado suas premissas. Elas serão fundamentais para passar credibilidade para o investidor e deixar claro que os valores foram calculados com base em algo sólido e factível.

Uma última dica: nada de ter pressa nesse momento! Sabemos da importância que captar recursos tem e do quão fundamental ele será para o desenvolvimento da sua empresa/projeto, mas a escolha deve ser feita com calma e avaliando de forma criteriosa todos os aspectos envolvidos nessa captação para que não haja arrependimento futuro e todas as complicações advindas disso.

Mas afinal, qual fonte eu devo escolher?

O passo inicial para definir qual fonte escolher é sempre conhecer muito bem sua empresa, bem como a necessidade e finalidade do capital a ser levantado. Em seguida, você deve avaliar as fontes disponíveis, sejam elas públicas ou de investidores, e definir critérios de comparação. Esses critérios vão variar de acordo com as especificidades do seu negócio, mas preparamos algumas dicas que podem te ajudar:

  • Qual o perfil da sua empresa? Preciso de recurso para concluir o desenvolvimento da tecnologia, para industrializá-la ou para comercialização?
  • Para quais itens eu preciso de financiamento?
  • Qual o montante necessário?
  • Qual é a minha condição financeira? Eu consigo pagar uma contrapartida ou assumir a garantia de um financiamento?
  • Qual condição a empresa está determinada a assumir? A empresa está disposta a assumir um financiamento de longo prazo ou seria melhor dividir a participação com um investidor?
  • Preciso de financiamento para a empresa como um todo ou para um projeto especifico?

Conclusão

Existem diversos caminhos possíveis para captar recursos e alavancar seu negócio. Por isso, antes de sair por aí atirando para todos os lados em busca de investimento, analise bem seu negócio, defina motivos claros que justifiquem o investimento, elabore um bom projeto, gaste tempo estruturando e validando seu pitch e seu valuation e aproveite essa busca para construir uma rede de relacionamentos e para aprender com os erros e acertos de outras pessoas que se lançaram nessa busca. E boa sorte!

 

Rafael Oliveira

Rafael Oliveira | Consultoria

Estudante de ciências econômicas na UFMG. Adora ler, ouvir música e sair para conhecer novos restaurantes e bons lugares para comer em Belo Horizonte. Esforça-se pra manter uma rotina de exercícios (e falha terrivelmente nisso toda semana). Atua na área de Consultoria da Biominas, embora também ofereça suporte às áreas de Empreendedorismo e Relacionamento.
roliveira@biominas.org.br