Quando falamos sobre a situação atual do Brasil é quase impossível deixarmos de pensar nas palavras crise, corrupção, lava-jato, desemprego, TSE, STF, JBS, Odebrecht, reformas da previdência e trabalhista, entre vários outros termos. Mas e se eu te falar que um termo que deveríamos estar considerando fortemente para esse momento é investir em inovação e, principalmente, inovação aberta. Você diria que eu fiquei louco?

É verdade que vivemos tempos de muitas incertezas. Em menos de dois anos, vivemos o impeachment de uma presidente da república que foi sucedida pelo seu vice e que agora também vem sendo fortemente contestado por uma parcela significativa da população após as últimas delações premiadas. Temos um congresso nacional cheio de investigados e citados na Operação Lava Jato que podem ser presos a qualquer momento e, ao mesmo tempo, esses mesmos congressistas debatem e tentar aprovar reformas que são fundamentais para o Brasil e que há muito tempo têm sido adiadas. Ainda que exista um consenso sobre a necessidade de se fazer as reformas, estamos bastante distantes de um consenso em relação a qual modelo seria o ideal e com qual velocidade o tema deve ser tratado. Além disso, todo esse cenário está envolvido numa espécie de rivalidade que surgiu durante a campanha para as eleições presidenciais de 2014 e que tem aproximado às discussões políticas das acaloradas discussões sobre futebol.

Do lado econômico, apesar do crescimento de 1% do PIB no primeiro trimestre de 2017, em relação ao trimestre anterior, é cedo para afirmar que saímos da grave recessão que afeta o país. Essa desconfiança quanto à recuperação da economia é justificada pelos demais dados que foram divulgados. Quando comparamos o resultado com o mesmo período do ano anterior, a economia apresentou retração de 0,4% e os componentes do PIB que dizem respeito à demanda doméstica (consumo das famílias; consumo do governo e investimentos) também apresentaram resultados negativos. O desemprego continua a aumentar e já ultrapassa os 14 milhões de pessoas.

Então, por que deveríamos falar de inovação com esse cenário?

Investir em inovação é frequentemente apontado como uma boa estratégia para sair da crise a frente dos seus concorrentes. E esse argumento faz sentido. Em períodos de crise é comum que as empresas sejam forçadas a abandonar projetos que não estejam ligados diretamente a seu core business ou que tenham uma expectativa de retorno menor ou de mais longo prazo. É o dilema entre manter o foco e controlar estritamente os custos e manter abertas, ao mesmo tempo, as opções de crescimento para o futuro.

A inovação aberta pode exercer um papel importante nessa solução. Ao romper fronteiras tradicionais da empresa, a inovação aberta deixa que ideias, propriedade intelectual e indivíduos fluam livremente – de fora para dentro da organização e de dentro para fora.

Quando a economia vai mal, momento em que vivemos atualmente no Brasil, a via oposta da inovação aberta – a inovação de dentro para fora – pode ser o caminho para a empresa se preparar para a melhora do cenário econômico sem prejudicar o controle dos seus custos. Essa modalidade de inovação está ligada a processos pelos quais uma empresa instala parte dos ativos ou projetos fora de sua estrutura. A Harvard Business Review Brasil, em artigo publicado em seu site, identificou cinco medidas da inovação aberta que vão permitir que a empresa se concentre hoje em suas principais operações e mantenha as opções de crescimento no futuro. São elas:

  1. Vire cliente ou fornecedora de projetos que já foram internos

Se sua empresa está buscando um recurso importante, mas caro demais para desenvolver sozinha ou adquirir no mercado aberto, e outras empresas do setor ou de outras áreas querem o mesmo, trate de se aliar a essas e outras para financiar, desenvolver e lançar a novidade por meio de uma empresa independente e seja sua primeira cliente.

  1. Deixe que outras desenvolvam suas iniciativas não estratégicas

Se sua empresa está fechando o foco no core business e detectou iniciativas adjacentes e complementares que consomem atenção, tempo e capital demais, mas que podem atrair interesse e investimentos externos trate de entregá-las a investidores que possam assumir o ônus de desenvolvê-las. O progresso da iniciativa será custeado por terceiros, mas sua empresa pode reter uma participação e usufruir de eventuais ganhos. Pode ate readquirir os melhores projetos.

  1. Faca a propriedade intelectual dar mais frutos para a sua empresa e a terceiros

Se boa parte da propriedade intelectual da empresa está parada, sem produzir nenhum beneficio financeiro, e a empresa sabe que seu valor, para ela e outras, será corroído, salvo se continuamente desenvolvida, trate de deixar que parceiros externos se beneficiem de sua criação, deem continuidade a seu desenvolvimento e paguem a sua empresa pelo direito de uso. Muitas empresas recuperam de 10% a 20% do gasto anual com P&D dessa maneira.

  1. Expanda seu ecossistema, mesmo quando não estiver crescendo

Se sua empresa for ativa na inovação e estiver sempre interagindo com clientes, colaboradores, especialistas do setor, associações setoriais e outros para identificar oportunidades futuras, trate de aproveitar seu ecossistema de potenciais parceiros de inovação. Seja como o olheiro no futebol, que sempre sabe quanto um time estará disposto a pagar por um determinado jogador.

Ao interagir com o ecossistema em tempos de crise, a empresa se torna uma parceira preferencial em oportunidades de inovação surgidas das diversas partes em torno de seu negócio e de sua cadeia de valor. Quando o mercado voltar a crescer, empresas que apostaram apenas no corte de gastos podem se ver lá no fim da fila.

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  1. Crie domínios abertos para reduzir custos e ampliar a produção

Se uma ideia interna tem altas chances de atrair o interesse de comunidades externas valiosas e de promover grandes saltos no setor, ou até mesmo mudá-lo radicalmente, trate de considerar o estabelecimento de domínios abertos para a troca de informações e ideias ou a oferta de instalações e serviços compartilhados.

Conclusão

Sabemos que liderar um processo de inovação aberta nas empresas não é simples. Diversas questões importantes precisam ser estudadas e uma estratégia precisa ser desenhada de maneira que os objetivos presentes e os futuros da companhia sejam alcançados. Mas sua empresa não precisa realizar todo esse processo sozinha. Utilizar a experiência de outras empresas para prospectar projetos inovadores e que atendam os pré-requisitos definidos pela sua empresa e encontrar parceiros estratégicos para desenhar essa abertura a inovação aberta podem potencializar os ganhos e reduzir os custos associados. A inovação aberta de dentro para fora vai deixar a organização mais ágil e com maior capacidade de reação na hora de enfrentar momentos difíceis. É um desafio, mas que vale a pena ser enfrentado!

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Rafael Oliveira

Rafael Oliveira | Consultoria

Estudante de ciências econômicas na UFMG. Adora ler, ouvir música e sair para conhecer novos restaurantes e bons lugares para comer em Belo Horizonte. Esforça-se pra manter uma rotina de exercícios (e falha terrivelmente nisso toda semana).
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