Grandes empresas farmacêuticas apostam em parcerias com novos empreendedores para desenvolver tecnologias, conectar pacientes e democratizar o acesso aos serviços

Por Ediane Tiago, Valor Econômico.

A agilidade e a criatividade das startups têm seduzido empresas tradicionais da área da saúde. As gigantes farmacêuticas são exemplos de companhias com programas de apoio às iniciantes. As ações aproximam os departamentos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) de conglomerados como Roche e Bayer às novidades do mercado, permitem um voo inovador na seara dos modelos de negócios e renovam o ânimo do time de pesquisadores. “Atualmente, 90% das pesquisas em nossas áreas de especialidade acontecem fora da empresa”, destaca Rolf Hoenger, presidente da Roche Farma Brasil.

Mundialmente, a Roche investe 20% do faturamento em P&D e enxerga no apoio às startups uma forma de fortalecer a estratégia de inovação. Para conhecer e captar bons projetos, participa da plataforma internacional 100 Open Startups, que conecta empresas iniciantes às grandes corporações. O último desafio proposto pela Roche buscou pro jetos variados na área de oncologia, incluindo descobertas científicas sobre câncer, plataformas digitais para trazer mais eficiência nos cuidados
com a saúde e soluções para ampliai- o acesso aos medicamentos. “Percebemos que precisamos atuar em todos os elos para garantir que o paciente tenha a melhor tecnologia à disposição”, comenta Hoenger.

Camila Navarro, gerente de inovação digital da Bayer Brasil, lembra que o perfil do consumidor mudou bastante. “As pessoas querem ter controle sobre a saúde, estão se cuidando mais para prevenir doenças.” Essa mudança no comportamento desafia a indústria farmacêutica, que precisa entenderas tendências de mercado. “A busca por inovação tem de ir além da pesquisa de novos medicamentos”, afirma Camila.

O programa global Bayer Grants4Apps realizou cinco rodadas de seleção de startups. A iniciativa aplica recursos de 50 mil euros em projetos inovadores, o que inclui treinamentos e uma temporada no escritório da empresa em Berlim, na Alemanha. As startups escolhidas são “aceleradas” pela farmacêutica. O foco é descobrir soluções digitais capazes de auxiliar profissionais de saúde e pacientes, além de sistemas dedicados à prevenção e diagnóstico de doenças.

“A colaboração entre laboratórios e startups é estratégica no fomento à inovação”, afirma Maria José Delgado Fagundes, diretora de inovação e responsabilidade social da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma). Segundo ela, o investimento público em P&D é tímido, e os recursos são constantemente contingenciados. “É difícil conseguir financiamento para bons projetos.”

Maria José destaca vantagens para os dois lados do balcão. Ao apoiar as iniciantes, os laboratórios reforçam os planos de P&D.Já as startups conseguem capital. Entre as parcerias, ela cita a da Interfama com a Biominas Brasil para acelerar empresas de base tecnológica.

Neste ano, o programa BioStartup Lab selecionou 21 projetos – do total de 351 inscritos. Os trabalhos incluem novas moléculas (com potencial para a área de medicamentos), suplementos alimentares, aplicativos para promoção da saúde e bem-estar, entre outras tecnologias. “Se o financiamento público para inovação é escasso, a saída está em fortalecer ações na iniciativa privada”, ressalta Maria José.

Para Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemísia, organização sem fins lucrativos que fomenta negócios de impacto social no Brasil, os investidores despertaram para as oportunidades da saúde e estão mais dispostos a aplicar recursos na área. A combinação entre demanda forte, gasto público expressivo e dificuldades enfrentadas pela iniciativa privada demonstram, na visão da executiva, a necessidade de inovação. “A cadeia de negócios está se reinventando. Há quatro anos, os projetos na área da saúde eram contados nos dedos, hoje, quase metade dos empreendedores que apoiamos atua na área.”

A Artemísia apoia projetos como a Beone, do empreendedor Caio Guimarães. Formado em engenharia elétrica pela Universidade de Pernambuco (UPE), ele participou do programa Ciências sem Fronteiras e foi estudar engenharia bioelétrica em Nova York (EUA). O desempenho acadêmico lhe rendeu uma temporada como pesquisador na cidade de Boston, onde trabalhou em um laboratório que reúne a equipe da escola de medicina da Universidade de Harvard e a turma de engenharia do Instituto de Tecnologia de Massachu- setts (M1T). “Entendi como poderia misturar as áreas de engenharia e medicina e iniciei as pesquisas para meu projeto”, conta.

De volta ao Brasil, o empreendedor montou uma equipe na UPE para desenvolver uma solução para tratar o pé diabético – condição que impede a cicatrização de feridas e resulta em alto índice de amputação entre os portadores de diabetes. O equipamento utiliza ondas eletromagnéticas para esti nutlar a regeneração da pele. A intensidade das ondas controla a inflamação, tem efeito bacteriano e acelera a cicatrização. 0 tratamento não é invasivo e, nos ensaios clínicos, não apresentou efeitos colaterais. Também é indolor. “Com algumas semanas, é possível curar a ferida e evitar a amputação, que é penosa para o paciente e custosa para o sistema de saúde.”

A Beone parte agora para uma segunda rodada de investimentos. “Precisamos de capital para montar a estrutura industrial e dar partida na produção”, diz Guimarães. Com o final dos testes clínicos, a empresa trabalha no protótipo comercial para registrar a solução na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Guimarães pretende lançar o produto no mercado em um ano. Entre as vantagens do tratamento, ele destaca o custo. ‘Trabalhamos com uma estrutura de preços fácil de ser absorvida pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Nossa meta é garantir o acesso da tecnologia à população.”

Acesso é o que move também os negócios da Labi Exames, fundada pelo executivo Marcelo Noll Barboza e pelo médico Octavio Fernandes – ambos atuaram na Dasa, maior rede de laboratórios de medicina diagnóstica do país. “As pessoas ficam doentes porque não conseguem pagar pelos cuidados com a saúde”, diz Barboza. Segundo ele, o alto custo de consultas e exames cria uma bola de neve no sistema de saúde. “Quando não há prevenção, o tratamento sai muito mais caro”, lembra.

O diferencial da Labi Exames está no modelo de negócios. Por meio de uma rede de técnicos de enfermagem, as coletas são realizadas em residências, empresas ou associações. Também é possível realizar exames nas duas unidades da empresa, inauguradas na cidade de São Paulo. “Além de preços acessíveis, queremos oferecer comodidade e praticidade”, diz Barboza.

O engenheiro Antonio Makiyama, fundador da Vi- vax, apostou na combinação entre robótica e games para criar um robô utilizado na reabilitação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC). O equipamento se parece com um controle de videogame gigante (uma caixa quadrada com alavanca) e é utilizado em sessões de fisioterapia para os membros superiores. No topo da alavanca, há uma bola para apoiar a mão do paciente, que recebe estímulos visuais e sonoros, por meio de jogos de computador, para mover o dispositivo. A técnica torna a sessão mais divertida, e o paciente se movimenta mais, acelerando a recuperação. “O AVC é uma das maiores causas de aposentadoria precoce no Brasil. Atinge toda a família”, diz Makiyama. O desenvolvimento do robô contou com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Já a conectividade foi a solução encontrada pela Fala Freud para ampliar o acesso do público à psicologia. A empresa criou uma plataforma para conectar terapeutas e pacientes. Pelo sistema, é possível contratar um plano mensal que permite ao usuário trocar mensagens de áudio ou textos com os terapeutas. Também há a opção,
dependendo do plano contratado, de marcar sessões por videoconferência.

A plataforma foi criada pelos empreendedores Yuri Faber e Ranan Pupin, que viram na carência de atendimento psicológico urna boa oportunidade de negócio. Faber frequentava sessões de terapia no Brasil quando se mudou para os Estados Unidos. “Para falar com a psicóloga que me atendia, usava o WhatsApp. Percebi que, mesmo a distância, eu poderia contar com o profissional em quem eu confiava.”

Quando o canadense Michael Kapps chegou ao Brasil, há quatro anos, deparou com a paixão dos brasileiros pelo celular. Resolveu unir mobilidade e atendimento à saúde para criar a Ta.Na.Hora, plataforma de engajamento de pacientes. “Um dos grandes desafios da saúde é disseminar informações para as pessoas se cuidarem melhor”, avalia. A startup utiliza robôs de comunicação (chatbots) para enviar mensagens de texto aos usuários do sistema de saúde. O objetivo é engajar e monitorar pacientes, promovendo ações de saúde. “Uma gestante vai receber informações relevantes sobre seu pré-natal e terá um canal de comunicação para tirar dúvidas.”

Como clientes, Kapps tem desde o SUS até os convênios médicos. “Com campanhas direcionadas, é possível cuidar melhor das pessoas e reduzir custos”, diz. Entre os canais utilizados pela Ta.Na.Flora para chegar ao público-alvo, estão sistemas de mensageria dos celulares, como o SMS, e do Facebook, o Messenger. “O segredo está em falar a linguagem do paciente.”

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