Da produção de insumos à descoberta de moléculas por inteligência artificial. Segundo dia de Summit consolidou a visão de que a biodiversidade brasileira é uma estratégia de Estado, e não apenas uma promessa científica.
O II InovafitoBrasil Summit encerrou suas atividades nesta quarta-feira (15), na Casa Firjan, no Rio de Janeiro, com uma programação que avançou da teoria à prática. Se o primeiro dia foi marcado pela urgência de integrar fomento, ciência e indústria para superar os gargalos da biotecnologia, o segundo trouxe as ferramentas concretas para percorrer esse caminho, da inteligência artificial aplicada à descoberta de fármacos ao lançamento de um dashboard inédito de inteligência de mercado em fitoterápicos.
A cadeia produtiva em foco: do campo ao SUS
A manhã começou com o debate que talvez seja o mais urgente para o setor: a produção nacional de Insumos Farmacêuticos Ativos Vegetais (IFAv). Na mesa, Hatylas Azevedo (Aché Laboratórios), Peter Andersen (Grupo Centroflora) e Rita Ferrari (Marjan Farma) discutiram os entraves e as oportunidades de escalar essa cadeia dentro do Brasil. O consenso foi que depender de insumos importados é incompatível com a proposta de um setor fitoterápico soberano, e que o volume de matéria-prima nativa disponível no país não tem par no mundo.
A conversa ganhou nova dimensão no painel da tarde, quando a FIRJAN trouxe o percurso que vai do laboratório à Farmácia Popular. Eamim Squizani, Leon de França Nascimento e Luana Nascimento apresentaram as estratégias de P&D desenvolvidas nos Institutos SENAI e no Centro de Inovação SESI para transformar pesquisa em produto acessível à população. A pergunta que ficou no ar, e que estrutura o desafio do setor, é: como encurtar esse trajeto sem abrir mão da segurança e da eficácia?

Inteligência artificial entra na floresta
Um dos momentos mais aguardados do dia foi a palestra sobre o uso de IA para a descoberta de moléculas da biodiversidade brasileira. Cristiano Guimarães (Nintx) e Daniela Trivella (LNBio/CNPEM) mostraram como algoritmos de aprendizado de máquina podem vasculhar a complexidade química da flora nacional em uma velocidade impossível para a ciência tradicional. A mensagem foi direta: o Brasil tem o maior banco de dados natural do planeta, e a inteligência artificial pode ser a chave para monetizar esse ativo antes que outros países o façam por nós.
Regulação: da barreira à alavanca
A tarde também aprofundou o debate regulatório, com Ana Cecília Carvalho (ANVISA), Anny Trentini (Evvis Consultoria) e Tatiana Ribeiro (Grupo Centroflora) discutindo os desafios e as perspectivas para a inclusão de fitoterápicos no SUS. O painel foi além do diagnóstico dos entraves e propôs uma mudança de perspectiva: a regulação, quando bem articulada com a indústria, pode deixar de ser obstáculo e se tornar um diferencial competitivo para os produtos brasileiros no mercado internacional.
Um novo instrumento para o setor
Outro destaque da tarde foi o lançamento do dashboard de Inteligência de Mercado em Fitoterápicos, apresentado por Daniel Cardoso (MDIC) e Ronaldo Pedro (NanoBusiness & ConvergeLab). A ferramenta reúne dados estratégicos sobre o setor e sinaliza uma maturidade institucional importante: o Brasil começa a construir a infraestrutura de informação necessária para que empresas, pesquisadores e gestores públicos tomem decisões baseadas em evidências, não em intuição.
A Política Nacional como âncora
A última mesa do evento abordou a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, reunindo Andrey Vilas Boas de Freitas (ABIFINA), Norberto Prestes (ABIQUIFI), Victor Doneida (Ministério da Saúde) e o professor Danilo Oliveira (UFRJ). O recado foi unânime: sem uma política pública sólida e contínua, os avanços científicos e industriais correm o risco de se perder na descontinuidade de governo. A Política Nacional não é um marco burocrático, é a espinha dorsal que sustenta toda a cadeia.
Um evento, uma agenda de Estado
Ao longo dos dois dias, o II InovafitoBrasil Summit confirmou seu papel como o principal fórum nacional de integração entre ciência, indústria e política pública no setor fitoterápico. O evento promovido pela Biominas Brasil e pela Sociedade Brasileira de Farmacognosia se encerrou com compromissos assumidos, parcerias iniciadas e uma mensagem clara: transformar a biodiversidade brasileira em saúde para o SUS não é uma visão de longo prazo. É uma agenda que começa agora.



