Saiba como as deep techs vem se tornando uma frente estratégica para empresas e para o setor de saúde.
Deep tech – Nos últimos dez anos, boa parte da transformação digital nas empresas foi movida por software, plataformas e aplicativos, com foco em otimizar processos e ampliar canais de relacionamento. Em saúde, porém, muitos dos desafios mais relevantes, como novas terapias, diagnósticos mais precisos, medicamentos e dispositivos, exigem, além de software, pesquisa científica e engenharia complexa. É nesse espaço que as deep techs ganham relevância estratégica.
Compreender o conceito é o primeiro passo para lideranças que querem construir vantagens competitivas sustentáveis por meio da inovação aberta e do Corporate Venture Capital (CVC).
O que define uma deep tech?
O termo foi criado em 2014 por Swati Chaturvedi, da gestora de venture capital Propel, para designar empresas baseadas em descobertas científicas tangíveis ou em inovações de engenharia significativas, que buscam resolver problemas de grande alcance. Já as startups digitais convencionais costumam inovar no modelo de negócio, apoiando-se em tecnologias já existentes. O exemplo clássico, usado pela própria Swati, é o Uber.
Em saúde, o Mapeamento de Deep Techs em Saúde 2022, da Biominas Brasil e da Iniciativa FIS, inclui desde machine learning e inteligência artificial até engenharia genética e nanotecnologia.
Três características ajudam a reconhecer uma deep tech:
- Base científica e propriedade intelectual: o conhecimento técnico é o principal diferencial, e as tecnologias costumam ser protegidas por patentes. Entre as biotechs participantes do mapeamento, 88,3% protegem suas soluções por patentes, depositadas ou concedidas.
- Ciclo longo e capital intensivo: estudo da BCG e da Hello Tomorrow aponta que essas empresas levam muito tempo para amadurecer e exigem montantes substanciais de capital.
- Potencial de impacto estrutural: segundo o mesmo estudo, 97% das deep techs pesquisadas contribuem para ao menos um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU.
Deep tech e startup digital: qual é a diferença?
Para quem planeja investimento e governança, vale comparar as duas abordagens:
| Dimensão | Startups digitais | Deep techs |
| Origem da inovação | Recombinação de tecnologias existentes e novos modelos de negócio | Pesquisa científica e engenharia de fronteira |
| Diferencial competitivo | Modelo de negócio e execução | Conhecimento técnico e propriedade intelectual |
| Prazo até o mercado | Tende a ser mais curto | Mais longo: P&D, validação e regulação |
| Perfil de risco | Principalmente de mercado | Tecnológico e de mercado |
| Infraestrutura e capital | Em geral, menor intensidade | Laboratórios, insumos e equipamentos; capital intensivo |
A maturidade tecnológica também é medida de forma diferente. O mapeamento usa a escala TRL (Technology Readiness Level), criada pela NASA, com nove níveis. Os níveis 1 a 3 são supridos principalmente por universidades e instituições de ciência e tecnologia, e a indústria costuma investir a partir do TRL 7.
Technology-Market Fit: validar a ciência e o mercado
Um enquadramento útil, que adotamos aqui como proposta de leitura e não como conceito consagrado, é o Technology-Market Fit. Em uma deep tech, é preciso validar dois riscos ao mesmo tempo:
- Risco tecnológico: a ciência funciona fora da bancada e pode ser replicada em escala?
- Risco comercial: existe uma dor real que o mercado esteja disposto a pagar para resolver?
Na saúde, a lógica de lançar rápido e ajustar depois, comum em software, tem limites: os produtos passam por diversas fases de testes clínicos, que exigem muitos recursos humanos e financeiros. Há ainda um desafio de percepção. No mapeamento, 60% das 233 empresas respondentes se auto classificaram em TRL 7 ou superior, enquanto 52% nunca captaram recursos públicos e cerca de 42% operam sem investimento externo (bootstrapping).
Os próprios autores avaliam que os empreendedores podem estar imaginando uma fase mais adiantada do que o mercado e os investidores enxergam. Entre as potenciais deep techs, 46% se declararam em TRL 8 ou 9, resultado que o relatório considera possivelmente superestimado.
Para as corporações, isso pede uma mudança de postura: em vez de procurar startups prontas para compra imediata, atuar como parceiras de co-desenvolvimento, validação e respaldo regulatório.
Por que as empresas estão olhando para as deep techs?
Historicamente, a incerteza tecnológica e o prazo de retorno afastaram as corporações desse ecossistema. Alguns fatores vêm mudando esse quadro:
- Investimento em expansão: entre 2016 e 2020, o investimento global em venture capital em Deep Techs passou de cerca de US$15 bilhões para mais de US$60 bilhões, segundo a BCG e a Hello Tomorrow. São dados de 2020 e devem ser lidos como retrato desse período.
- Inovação aberta: à visão de que deep techs só geram valor para empresas com áreas de P&D muito estruturadas vem sendo revista. Elas podem ser usadas para resolver problemas atuais do negócio ou para construir o futuro da organização.
- Divisão de papéis: para Thiago Mares Guia, da Bionovis, é difícil para a empresa privada investir no estágio muito inicial, e o papel da indústria é entrar depois de uma prova de conceito. O mapeamento destaca mecanismos de compartilhamento de riscos, como codesenvolvimento e encomendas tecnológicas. Fundos de CVC, como o formado por Sabin, Fleury e Bradesco Seguros com a Kortex Ventures, já atuam nessa frente em diagnóstico, saúde digital e genômica.
- Agenda ESG e ODS: desafios de saúde populacional e sustentabilidade pedem soluções físicas, químicas e biológicas concretas.
Biotecnologia: um exemplo central
A biotecnologia ilustra bem o conceito. Segundo o mapeamento, as biotechs desenvolvem soluções baseadas na extração ou na manipulação de organismos vivos, com papel fundamental em medicamentos, vacinas e diagnósticos. As TechBios, termo associado à Artis Ventures, aplicam engenharia diretamente à biologia, e a integração entre inteligência artificial, software e hardware tende a reduzir custos e tempo de processos biotecnológicos.
Entre os 71 negócios identificados no Brasil como potenciais deep techs em saúde, as biotechs formam o maior grupo, com mais da metade dos casos. O mapeamento descreve, por exemplo, a Celluris, que desenvolve imunoterapia CAR-T para tumores sólidos, a Vyro, que pesquisa vírus oncolíticos para tumores do sistema nervoso central, e a Nintx, que trabalha com produtos naturais e microbiomas humanos. Os dados são de 2022 e o status atual de cada empresa deve ser confirmado.
Próximos passos
Compreender o conceito é apenas o ponto de partida. No próximo artigo, analisaremos o panorama das Deep Techs na América Latina: o volume de investimentos, a maturidade dos ecossistemas locais e as oportunidades para a inovação corporativa.
Quer saber como sua empresa pode se conectar a startups de base científica? Conheça o Mapeamento de Deep Techs em Saúde 2022 e descubra como articulamos conexões entre corporações e o ecossistema de ciência e tecnologia.
Referências
- Biominas Brasil; Iniciativa FIS. Mapeamento de Deep Techs em Saúde 2022. 2022.
- Projeto Draft. Verbete Draft: o que é Deep Technology. 24 nov. 2021.
- Forbes Brasil. Entenda o que são as deep techs e como surgiu o conceito. 20 maio 2022.
- BCG; Hello Tomorrow. From Tech to Deep Tech (2017) e The Deep Tech Investment Paradox (2022).
- Emerge Brasil. Relatório Deep Techs Brasil 2024. Resumo em: Startups.com.br, Biotech e agro é caminho para deep techs no Brasil, diz estudo.



