Estar inserido em um ecossistema de inovação que impulsiona a colaboração e atenda as necessidades específicas dos negócios em biotecnologia pode ser a saída para vencer o “vale da morte” e  promover a inovação no setor.

É comumente aceito que a inovação é um dos principais determinantes da competitividade das empresas na atualidade. Para diferenciar significativamente de seus concorrentes, as empresas buscam desenvolver produtos e serviços inovadores. Segundo dados da CBInsights1, 84.9% das grandes corporações de diversos segmentos reconhecem a importância da inovação para a sua competitividade. Entretanto, 78% dos portfólios dessas empresas são alocados para a inovação contínua, ou seja, a inovação incremental ao invés da disruptiva, o que reduz a possibilidade de geração de novos produtos e processos. O mesmo é observado para a área de ciências da vida. Segundo os dados do relatório da PwC2, 58% dos CEOs de grandes empresas  farmacêuticas consideram o processo  de inovação necessário para a competitividade  da mesma.

Entre os diversos processos e formas de se inovar, observa-se uma tendência à adoção de um modelo de inovação considerado aberto. Popularizado por Henry Chesbrough, o termo “Inovação Aberta” refere-se aos conceitos amplos de alavancar fontes externas de tecnologia e inovação para impulsionar o crescimento interno. Apesar de possuir diferentes definições e modelos desenvolvidos nesses 16 anos após sua concepção, a inovação aberta é resultado de um conjunto complexo de relações entre diferentes atores, que inclui empresas, universidades e institutos de pesquisa.

O modelo de inovação aberta se torna especialmente importante quando pensamos em negócios baseados em hard-science no setor de ciências da vida, que envolvem tecnologias e soluções científicas de maior complexidade técnica e riscos, mas com grande potencial de impacto. O futuro está cada vez mais direcionado pelo desenvolvimento da biotecnologia. Grandes corporações e investidores, oriundos de diversas áreas de atuação, já começaram a se mover nessa direção, tanto que em 2016 o financiamento total em biotecnologia foi em torno de US$7.9 bilhões em comparação com US$1.7 bilhão em 20113. Organizações que antes eram “puramente” digitais, baseadas em tecnologias de informação e comunicação, estão reformulando suas estratégias de inovação para investir em soluções biotecnológicas. Empresas como Google,  Amazon, IBM, Facebook e outras já possuem diversas iniciativas e parcerias estratégicas a fim de atuarem no setor. Apesar desse movimento, sabemos que os desafios para se inovar em ciências da vida são muitos, seja para empresas nascentes – spin-offs acadêmicas e startups- como para grandes corporações, especialmente no contexto brasileiro.

Os gaps da inovação para negócios científicos

Segundo dados do Fórum Econômico Mundial (4), em 2017-2018, o índice de competitividade global do Brasil apresentou uma ligeira melhora, e o maior progresso foi proveniente do pilar Inovação. Ficou evidente uma melhora na capacidade de inovar do país, maior colaboração universidade-empresa, maior qualidade das pesquisas científicas e da mão-de obra composta por cientistas e engenheiros. Em paralelo, estamos vivenciando “o movimento” das metodologias ágeis, provenientes do mundo de startups digitais, que revolucionaram a forma como criamos, testamos e escalamos um negócio e, evidentemente, também impactaram no desenvolvimento de soluções biotecnológicas.

Apesar do contexto ser relativamente animador, negócios baseados em hard-science possuem suas peculiaridades e desafios próprios, requerendo metodologias e abordagens também específicas. Primeiramente, são negócios que requerem uma forte base científica, constituída por recursos humanos com habilidades e conhecimentos específicos. Também é necessário uma complexa infraestrutura e maior tempo de desenvolvimento das soluções, ou seja, um longo caminho deve ser percorrido até a chegada ao mercado. Além disso, o processo de escalonamento e reprodutibilidade dessas soluções é um ponto crítico, podendo representar o “vale da morte” para as tecnologias e negócios nascentes, principalmente quando os recursos financeiros necessários são elevados e escassos.

Para as grandes empresas, inovar também é desafiador, uma vez que estas enfrentam o dilema entre a eficiência de explorar seus recursos ao máximo e criar novos produtos e serviços inovadores no menor tempo possível para manter a competitividade. Sem citar as questões organizacionais internas, tais como cultura, engessamento burocrático, morosidade e outros fatores dificultadores para o processo como um todo.

Diante desse cenário, estabelecer parcerias pode amenizar as dificuldades e viabilizar a trajetória desses negócios rumo à inovação e ao sucesso. Dentre as forma de colaborações, inclui as diversas formas de engajamento existentes entre as grandes corporações e startups que podem combinar os pontos fortes uns dos outros para preencher lacunas e criar valor.

O poder das conexões

O intercâmbio de tecnologia e informação entre pessoas, empresas e instituições é um dos principais determinantes para um processo ser considerado ou não inovador, principalmente no setor de biotecnologia. Dessa forma, é comum ouvir falar sobre a relevância de se estar inserido em um ecossistema de inovação. Ecossistema é um termo popular no mundo do empreendedorismo, com diferentes definições e significados a depender do propósito e contexto empregados. Os ecossistemas podem ser entendidos como “redes” cujo elemento principal são as conexões entre os seus agentes e elementos. A conexão efetiva entre esses diferentes agentes e elementos criam um ambiente propício para fomentar e alavancar o processo de inovação e empreendedorismo.  

Um ecossistema de inovação bem estruturado e de alta performance reúne diversos elementos que facilitam o desenvolvimento de negócios. Um desses elementos é reunião e atração de talentos, ou seja, pessoas com diversas skills e experiências, promovendo a diversidade no ambiente de trabalho, um componente essencial para a inovação. Vale ressaltar também a densidade que surge nesses ambientes por meio da criação de hubs que conectam startups e corporações, formando uma rede de mentores e investidores. Outro elemento essencial é a disponibilidade de recursos, sejam financeiros, know-how tecnológico ou de negócios, bem como a disponibilidade de infraestrutura. Além disso, esses ecossistemas oferecem uma cultura e políticas próprias, na qual o fracasso e falhas fazem parte do processo de aprendizado, promovendo e encorajando a inovação.

7 motivos pelos quais sua empresa não consegue inovar

Há diversos ecossistemas de inovação, de maior ou menor magnitude e impacto, prontos para impulsionar o desenvolvimento de novos negócios. Neste contexto, é impossível não citar o famoso e bem sucedido Vale do Silício. Porém, parte do sucesso desse ecossistema foi construído devido à disponibilidade de capital de risco para financiar, em sua maioria, negócios baseados em produtos digitais que envolvem tecnologias relativamente mais simples, baratas e rápidas de serem desenvolvidas. Quando pensamos em negócios biotecnológicos, a história é outra. A maioria dos fundos de investimento não está preparado para assumir o risco tecnológico que é inerente a esses negócios. Portanto, é essencial buscar aquele ecossistema que melhor irá atender as especificidades de cada empreendimento.

Não se pode negligenciar a grande diferença que existe entre a descoberta científica realizada no laboratório e o momento em que esta gera valor no mercado. É preciso esforço para suprir essa lacuna e, um dos caminhos é a criação de um ecossistema de inovação desenvolvido para comercializar esse tipo de ciência. Além disso, ser capaz de colaborar e estabelecer parcerias de forma eficaz acaba por ser uma vantagem competitiva de extrema relevância, possibilitando alavancar inovações científicas disruptivas e trazendo benefícios tanto para corporações já consolidadas quanto para empresas nascentes em ciências da vida.

 

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Referências
1- State of Innovation, 2018. CB Insigts. https://www.cbinsights.com/research-state-of-innovation-report
2-Global Innovation Survey, 2013. PwC
3-Financing in Biotechnology,” CB Insights. https://www.cbinsights.com/search/
4-The Global Competitiveness Report 2017–2018, World Economic Forum.