O início do mês de Outubro sempre é uma época aguardada no meio científico. É quando acontecem os anúncios do prêmio Nobel, com certeza a mais alta distinção que um cientista pode receber. O patrono e criador do prêmio, Alfred Nobel, foi um prolífico inventor sueco, que acumulou grande fortuna pelo recebimento de royalties a partir da aplicação de suas 355 invenções, sendo que provavelmente a de maior fama é a dinamite. Nobel deixou em seu testamento que 94% de sua fortuna (cerca de 150 milhões de euros, em valores ajustados para 2008) fosse utilizada para a constituição de um prêmio para distinguir pessoas que contribuíram de modo significativo para a humanidade. O suposto motivo que levou Nobel a esta decisão (um tanto quanto drástica) é bastante curioso. Dizem alguns historiadores que, alguns anos antes de sua morte, Nobel leu o próprio obituário em um jornal francês, que o confundiu com seu irmão. O tom da publicação não poderia ser menos elogioso, chamando-o de “mercador da morte”, por conta de suas invenções com aplicações bélicas. Essa experiência o teria deixado obcecado em como ele seria lembrado após a morte, levando-o a decidir dedicar sua fortuna para algo que impactasse mais positivamente a sociedade que armas e explosivos.

 

Imagem 1: A honrosa medalha recebida pelos premiados.

 

Os prêmios atualmente são distribuídos em 6 categorias diferentes: Fisiologia e Medicina, Química, Física, Literatura, Paz e Economia. Desde a sua primeira edição, em 1901, o prêmio vem destacando descobertas que impactaram significativamente a vida humana, indo desde soluções para questões humanitárias extremamente complexas até tecnologias que implicam na maneira como vivemos no dia a dia. Além do imenso prestígio, o vencedor também recebe uma bolsa de valor considerável, oferecida pelo Instituto Nobel, instituição curadora do prêmio. Os campos de saúde e medicina são naturalmente de ampla relevância e inventores e cientistas que impactaram a área constituem grande parte dos seletos premiados, incluindo o primeiro prêmio anunciado, no campo da física, mas diretamente ligado à medicina: Wilhelm Röntgen, pela descoberta dos Raios X.

 

Este ano, o prêmio de medicina e fisiologia foi para William Kaelin, Peter Ratcliffe and Gregg Semenza, por desvendarem a maneira como células reagem a diferentes níveis de oxigênio, mecanismo que teve enorme implicação na orientação para tratamentos de doenças como o câncer e anemia. As demais premiações deste ano não tiveram relação direta com saúde: a descoberta da existência de exoplanetas para o prêmio de física, a invenção da bateria de íons de lítio para o prêmio de química. O prêmio de literatura foi anunciado para 2018 e 2019, com a autora polonesa Olga Tokarczuk levando o do ano passado (que foi anunciado agora) e o autor austríaco Peter Handke o de 2019. Abiy Ahmed Ali, primeiro-ministro etíope, foi anunciado como o escolhido para o prêmio da paz e o de economia foi para Abhijit Banerjee, Esther Duflo and Michael Kremer, por estudos sobre como combater a pobreza. Uma curiosidade desse ano é que um dos vencedores, John B. Goodenough, aos 97 anos, é o mais velho a receber a honraria. Em sua risonha entrevista para o podcast da revista Nature após o anúncio, ele menciona que frequenta o laboratório diariamente e que recebeu a notícia por colegas, já que ele não conseguiu atender a ligação do Instituto Nobel: estava escovando os dentes.

 

Michel Mayor, premiado deste ano em física, lendo emails no aeroporto, logo após descobrir que havia sido agraciado.

 

Aqui no Biominas Hub temos a participação de diversos cientistas nas empresas residentes e na equipe da Biominas, e fomos conversar com alguns deles durante a semana da entrega do prêmio para saber quem eles admiram. O Prof. Carlos Alberto Pereira Tavares, da empresa RW Bioprospection, citou os vencedores do prêmio Nobel de medicina em 1984: Niels Kaj Jerne, Georges J. F. Köhler e César Milstein, pelo descobrimento dos anticorpos monoclonais, tecnologia que revolucionou o campo terapêutico para doenças como o câncer. Já a Dra. Alessandra Ruiz, da Ampligenix, indicou a geneticista brasileira Mayana Zatz, pelo trabalho com células-tronco e o vencedor do prêmio Nobel de 2006, Andrew Fire, pelo silenciamento gênico por RNA de dupla fita. Cristiane Toledo, líder de projetos em inovação da Biominas Brasil, destacou os professores da UFMG Rochel Lago, pelo empenho em gerar spin-offs acadêmicas e Rafaela Ferreira, pelo estudo utilizando a bioinformática para gerar modelos de predição de novos fármacos para doenças negligenciadas. Por fim, Izadora Tabuso, supervisora de qualidade da Neomatrix, mencionou como seus pesquisadores favoritos as responsáveis pelo sistema CRISPR/Cas9 de edição de DNA, Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna, além do médico brasileiro Carlos Chagas, por descrever completamente a doença que levou seu nome, causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi. 

 

Também perguntamos nas redes sociais quais cientistas se destacavam. Recebemos várias respostas que mostram como nossos seguidores estão bem informados sobre ciência! Foram lembrados a Rosalind Franklin, cujo trabalho (nem sempre bem reconhecido) com cristalografia ajudou enormemente a descoberta da estrutura do DNA, o polivalente barão de Humboldt, com descobertas relevantes em (pelo menos) impressionantes nove áreas diferentes: etnografia, antropologia, física, geografia, geologia, mineralogia, botânica, vulcanologia e humanismo. Nomes de peso da ciência contemporânea como Darwin e Einstein também surgiram nas respostas. Além deles, nomes como a neurologista italiana vencedora do Nobel Rita Levi Montalcini e o geneticista e empreendedor americano Craig Venter também foram lembrados.

 

Rosalind Franklin, autora da famosa foto 51, importantíssima para desvendar a estrutura do DNA.

O Biominas Hub se orgulha de ser uma estrutura que ajuda descobertas em ciências da vida com alto potencial de impacto a percorrer sua trajetória da bancada até o mercado. Se frequentemente o dilema entre como equalizar ciência básica e aplicada nos leva a discussões acaloradas e frequentemente uma nítida separação, temos alguns bons pontos a aprender com o prêmio Nobel. Todo o seu conceito está baseado em usar recursos obtidos através de aplicações de tecnologias para financiar e destacar pesquisas básicas proeminentes e com alto potencial de impacto! Para entender um pouco mais sobre ciência, recomendamos alguns posts no nosso blog: Temos um de CRISPR, um com sugestões de palestras do TED na área de Biotecnologia e um sobre o risco das superbactérias! Ainda temos conteúdo também sobre ciência aplicada: sobre como universidades vem incentivando seus pesquisadores a pensarem em propriedade intelectual, sobre como fazer sua pesquisa sair da bancada e sobre como a participação em um coworking pode alavancar seu negócio!