Como transformar boas ideias em propostas de editais: um passo a passo prático de Veronica Peixoto, da Biominas Brasil.
Você já deve ter escutado que “os editais estão cada vez mais concorridos”. E é verdade. Em 2024, a Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) recebeu mais de 3.000 propostas, e apenas cerca de 20% foram recomendadas para financiamento¹. Já a Finep, que investiu mais de R$ 1,5 bilhão em subvenção, também operou com taxas de aprovação entre 20% e 35%². Ou seja: ter uma boa ideia é importante, mas não basta. O que costuma fazer a diferença é como essa ideia é estruturada, apresentada e encaixada no edital certo.
E é justamente nesse processo que muitas propostas acabam perdendo força. Porque escrever uma proposta não é só “responder perguntas” em um formulário online. É pensar em estrutura, coerência, narrativa e estratégia. É traduzir uma intenção (ou um sonho mesmo!) em um plano viável, com começo, meio, fim e orçamento.
A seguir, compartilho um passo a passo que uso no meu dia a dia na Biominas Brasil. Pode adaptar, ajustar e seguir do seu jeito.
1 – Comece pelo edital
Antes de qualquer escrita, leia o edital com atenção. É nele que estão os objetivos da chamada, o público-alvo, os limites de orçamento, as exigências de contrapartida e os critérios de avaliação. Esses pontos moldam toda a lógica do projeto.
Segundo a Fapemig, boa parte das propostas inabilitadas em 2024 foi por falhas simples de enquadramento. Se algo parecer confuso ou aberto à interpretação, não hesite em entrar em contato com o órgão responsável pela chamada. Uma simples dúvida enviada por e-mail pode evitar semanas de trabalho na direção errada.
Minha sugestão: leia o edital com calma, grife os pontos-chave e, se possível, faça uma primeira reunião com todos os envolvidos no projeto só para discutir esse documento e finalize com um checklist. A proposta começa a ser aprovada (ou não) antes mesmo de ser escrita.
2 – Narre um problema “de mercado”, não só técnico
Um erro comum na elaboração de propostas é começar pela solução. Mas, na prática, o que os avaliadores buscam são respostas claras para desafios relevantes, de preferência, problemas que já estejam sendo pagos, sofridos ou debatidos por alguém no mercado ou na sociedade.
Por isso, comece sua proposta explicando o problema que você quer resolver. Mas faça isso com contexto: traga dados, referências e evidências que mostrem a gravidade (ou a urgência) do desafio. Vale usar fontes públicas, estudos de mercado, experiências anteriores ou dados de usuários reais. O importante é mostrar que esse problema existe, tem impacto e não está bem resolvido ainda.
Na sequência, conecte sua solução de forma objetiva: o que exatamente você propõe desenvolver, qual o diferencial frente ao que já existe e por que isso é relevante agora? Nada de jargão técnico ou promessas genéricas. Pense em como explicaria a proposta para alguém que entende o setor, mas não necessariamente a sua tecnologia.
Uma dica final: evite cair na armadilha de fazer um texto descritivo demais, sem conexão com os critérios do edital. Muitos programas avaliam “relevância da solução”, “impacto econômico/social” ou “aderência ao setor produtivo”. Amarre a narrativa de forma que o problema e a proposta conversem diretamente com esses critérios.
Lembre-se: avaliar projeto é decidir investimento. Por isso, é fundamental oferecer clareza.
3 – Transformando ideias em números (sem sustos)
O orçamento não é um anexo da proposta, ele é parte essencial da estratégia. Muitos projetos promissores acabam não sendo aprovados por orçamentos mal estruturados ou pouco realistas.
O primeiro passo é entender o que pode ou não ser financiado. Outro ponto-chave é o equilíbrio entre categorias. Se 70% do recurso está concentrado em um único item, isso pode comprometer o projeto. Uma boa proposta distribui bem os recursos entre equipe, materiais, serviços e equipamentos, de acordo com as etapas do plano de trabalho.
E já que falamos de orçamento, não dá pra deixar de fora a contrapartida. Ela pode ser financeira (com desembolso direto de recursos) ou econômica (como uso de estrutura, horas de equipe ou insumos já adquiridos). O mais importante é que seja viável, proporcional e compatível com a realidade da empresa. Planeje orçamento e contrapartida juntos, com justificativas claras e bem documentadas.
4 – Projetos colaborativos: como mostrar que sua parceria é real
Muitos editais valorizam, e pontuam, propostas feitas em parceria. Um erro comum é incluir parceiros apenas para “compor o consórcio”, sem detalhar entregas ou responsabilidades. O avaliador percebe. Mostre quem são os parceiros, o que cada um vai fazer e como a colaboração será gerida.
💡Dica prática: use instrumentos simples como Memorandos de Entendimento ou Cartas de Anuência com escopo claro, divisão de tarefas e, se necessário, cláusulas sobre propriedade intelectual e uso compartilhado de recursos. Isso não só organiza a execução, como antecipa pontos que serão checados na fase de diligência.
Parcerias bem estruturadas não só fortalecem a proposta, como facilitam a execução, evitam ruídos e aumentam as chances de sucesso do projeto como um todo.
4 – Submissão sem sustos: cronograma e revisão
A última etapa é garantir que a proposta seja entregue com qualidade e no prazo. É aqui que muitos projetos escorregam: arquivos fora do padrão, erros na plataforma ou documentos faltando.
A melhor forma de evitar esse problema é trabalhar com um cronograma reverso. Ou seja, parta da data final de submissão e distribua os marcos para trás, com prazos internos realistas. Um modelo possível:
💡 Dica prática: não espere o último dia. A maioria dos sistemas trava nas últimas horas, e o suporte técnico dificilmente dá conta do volume.
Outra etapa fundamental é a revisão externa. Peça para alguém de fora da equipe técnica ler a proposta com olhar crítico. Pergunte: “você entendeu o que a gente quer fazer?”, “os objetivos estão claros?”, “faz sentido o que estamos pedindo?”. Esse retorno pode identificar dúvidas ou incoerências que passaram batidas por quem está imerso no projeto.
Quando o processo está claro, sobra tempo para o que importa: provar que sua inovação resolve um problema real e gera retorno.
Se precisar de suporte em qualquer etapa, da análise de edital ao due diligence, conte com o time Biominas. Entre em contato por aqui! Transformar ciência em impacto (e em projetos aprovados) é o que nos move.



